Como o visual do filme “Historia de um Casamento” te influencia17 min read

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Esta análise contém spoilers

Na semana passada foi ao ar minha opinião sobre o filme “História de um Casamento” e acho que é relevante uma análise exclusiva sobre sua fotografia e cores pois são aspectos que influenciam muito a forma como nos envolvemos nesse filme.
Talvez não para os leigos ou pra quem assiste apenas para entretenimento, mas se você é, como eu, um amante do cinema; deve ter percebido que composição de cena, gestuais do elenco e as nuances das cores que se apresentam fazem diferença para compreendermos os sentimentos desses personagens.

Algo que é muito mencionado no longa de Noah Baumbach é o espaço: em diversos momentos, principalmente quando Charlie (Adam Driver) se recusa a se mudar, pessoas comentam como há espaço disponível em LA e que não há em NY. Curioso como em uma entrevista para a revista digital DEADLINE, o diretor de fotografia Robbie Ryan relata que esteve em um espaço privilegiado dentro do set, operando a câmera, de frente para os atores, de frente para as angústias e tristezas que esses protagonistas estavam enfrentando.

Robbie trabalhou com Baumbach em “Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe” (disponível na Netflix) e quando o diretor o chamou para filmar “História de um Casamento” ele aceitou sem nem ler o roteiro. Depois de ter aceitado, a primeira coisa que leu foram 13 páginas, que eram o monólogo de Nicole (Scarlett Johansson).

Como Noah Baumbach queria e como ficou no final

Segundo Ryan, Noah adora movimentação de câmera, dinâmica é algo que quase sempre se vê em seus longas. Mas neste aqui, a maioria das pessoas está sentada em escritórios, existe a presença de câmeras estáticas em diversas ocasiões, o que também pode tornar a experiencia de assistir muito monótona. Então, decidiu-se pelo movimento das câmeras a partir dos personagens e, com isso, entramos no mundo da composição de cena.

Algo que notei de cara, na primeira vez que Scarlett Johansson aparece em cena é sua semelhança visual à Bibi Andersson em “Persona” (disponível no Telecine, assistam.. é demais!).
Vejam como ambas estão parecidas, principalmente depois da mudança de cor de cabelo. Mesmo que o longa do diretor sueco Ingmar Bergman seja em preto e branco, percebemos que Bibi era loura. Existe uma cena, no começo, onde o figurino de Scarlett se assemelha ao de Liv Ullmann.

Minha percepção estava correta e uma das grandes influências de Baumbach aqui é justamente, “Persona”. Podemos notar essa referência em algumas cenas, e se você não viu, eu vou te contar!
Além do visual, que podemos perceber de forma evidente, os enquadramentos usados por Ryan para capturar a presença de Nicole são bem parecidos com os que podemos assistir em Persona para ambas as personagens.
Estas cenas do julgamento demonstram uma camada de sobreposição de rostos, quase chega ao ponto de um bloquear o outro. Isso acontece em diversos momentos em Persona, quando as faces das protagonistas se fundem. É incrível a profundidade de campo que se forma nesse tipo de cenas e a câmera em close nos deixa mais próximos psicologicamente dos personagens. Tanto em Persona quanto em Historia de um Casamento.

Noah Baumbach aceitou a sugestão de Robbie Ryan de utilizar lentes ultra-wide, as mesmas usadas nas filmagens de “A Favorita” (inclusive indicado ao OSCAR de melhor fotografia em 2019, também disponível no Telecine)  e isso trouxe um pouco mais de alívio às cenas internas pois as câmeras não ficavam focadas apenas nos rostos dos atores. Vemos também o uso dessas lentes em momentos que simbolizam muito o quanto ambos estão distanciados em todos os aspectos:

No final, era pra ser um filme muito simples, mas, do ponto de vista técnico, como o processo de Noah leva bastante tempo de gravação, são muitas cenas, Robbie relata que o grande desafio era manter a luz constante e de diversas perspectivas. Eles filmaram em 20 escritórios diferentes, com luz natural, no inverno, quando anoitece mais rápido. Pensa aí no desafio desse cara!

A paleta de cores e a luz em “História de Um Casamento”

paleta de cores

Temos a presença de marrons, amarelos e laranjas, essa é a paleta base do longa e vemos isso desde o poster, que é a porta de entrada para que você tenha uma vaga noção do que será aquele filme, é a forma como ele se vende.

São tons melancólicos, entediantes, com pouco contraste, bem sóbrios e até nisso podemos ver uma semelhança com Bergman, em dois momentos:

  • Uma vez que o filme se compõe com cores análogas, ele parece um pouco monótono, duocromático. Voltamos em Persona que é totalmente filmado em preto e branco, logo, duocromático.
  • Percebi também uma grande semelhança com “Cenas de um Casamento”, que por sua vez, é estrelado por Liv Ullmann, uma das protagonistas de “Persona”; e a paleta de cores é a mesma. Vemos diversos cenários com um bege alaranjado desbotado, bem sóbrio, quando há cores, são em tons bem fechados. Não há alegria em “Cenas de um Casamento”.

Esta cena do metrô com Adam e Scarlett é bastante impressionante e Ryan acredita em iluminar os locais da maneira que eles são. Então, o metrô é o metrô. E para esta filmagem a equipe não locou a estação pois ficaria extremamente caro, então eles decidiram se esconder no vagão, à uma hora da manhã e gravar.

Além disso, o filme trabalha uma dualidade entre as costas dos EUA: Charlie tem seu trabalho e mora em Nova Iorque, que é mais frio; e Nicole se muda para Los Angeles, onde é mais quente (California, meus amigos!). Obviamente, as roupas e o calor de Los Angeles eram uma grande oposição à frieza de Nova York. São comparações bastante óbvias, mas isso se encaixa perfeitamente na história. Observamos que a luz do sol de Los Angeles, comparada com o tipo de cinza escuro de Nova York, é muito evidente quando assistimos ao filme.
Embora o filme traga essa disputa, temos a mesma paleta durante todo o longa e a diferença se dá através da iluminação.

O Design de Produção e o Figurino

E neste aspecto entra o trabalho de Jade Healy, com o design de produção que foi uma força motriz. Ela conhecia as cores que existem em Nova York e as cores e sentimentos que existem em L.A. Como disse inicialmente, temos marrons como base, e as cores secundárias são os cinzas, vermelhos e verdes suaves.

A casa deles em Nova York está cheia de livros e arte, cheio de coisas que eles juntaram ao longo dos anos que viveram lá.

Quando a história se muda para Los Angeles, a paleta do filme tem uma alteração para um verde mais pálido, amarelo e rosa. As coisas de Nicole são mais femininas, temos a presença de azuis, e percebemos a diferença também através do figurino. Antes, em NY, suas roupas eram sem graça, em tons fechados e em LA ela passa a usar padronagens florais e em tons mais abertos.

À medida que o filme avança e Charlie é forçado a viver em Los Angeles, como há mais espaço, Healy e Baumbach se aproveitam disso. O espaço negativo, as áreas vazias dos ambientes, acentuam a separação entre os dois, traz uma sensação de isolamento, especialmente quando se trata de Los Angeles. Vemos Charlie sendo engolido pelo espaço, desde quando pousa no aeroporto até quando está na própria casa.

Definição de espaço negativo em fotografia:

Espaço negativo é a área entre ao redor de objetos em uma foto. Use-o para ver as formas e tamanhos de forma mais eficaz, e produzir imagens compostas melhor.Espaço negativo, por vezes referido como o espaço branco, é um conceito que tem sido utilizado em arte, design, arquitetura e escultura por centenas de anos.

Por outro lado, quando Charlie está em Nova York, ele está cercado de pessoas, seja no teatro ou em um restaurante.

Isso se traduz particularmente bem em uma sequência que começa durante um ensaio tumultuado na companhia de teatro, onde Charlie e um colega lutam para encontrar um lugar com privacidade para conversar e são forçados a entrar no corredor dos fundos.
Posteriormente Charlie recebe um telefonema importante e novamente é forçado a improvisar um local tranquilo, onde desta vez é uma escada, onde é constantemente interrompido. Ele finalmente vai pra fora, onde vira um pontinho num mar de milhares de pessoas em uma rua movimentada – esse é o ambiente em que Charlie vive, aquele que ele não consegue imaginar deixando para traz, em troca de o espaço que há em Los Angeles.

Charlie precisa encontrar um apartamento em Los Angeles e é a última coisa que ele quer fazer, principalmente quando ele tem uma peça de teatro prestes a estrear. A medida que o divórcio e os desafios avançam, ele se vê obrigado a se estabelecer em Los Angeles. Jade Healy conta:

Eu e Noah estávamos em sintonia quanto ao ambiente. Deveria ser aquele tipo de lugar onde você não quer passar muito tempo lá, deveria ser chato, queríamos algo que parecesse vazio de qualquer tipo de de luz, livre de memórias. Passamos muito tempo procurando aquele apartamento e quando o encontramos, usamos o máximo de bege possível. Deveria ter a ideia de alguém que não está perdendo tempo procurando um sofá ou uma mesa de centro.

Podemos observar que o único cômodo em que Charlie investe é o quarto de seu filho Henry. Há cores na cama e arte na parede, é o único lugar que tem vida.

A semelhança com “Cenas de um Casamento” e as referências

À medida que fui assistindo o longa de Baumbach, pensei muito em Bergman:

  • O falatório constante é algo perturbador. Me contem aqui nos comentários como vocês se sentem com esses filmes que tem muito diálogo; chega um ponto em que fico desnorteada!
    A diferença entre eles é que no longa do sueco, o diálogo é muito mais rebuscado, filosófico, cada palavra é como se uma bala fosse atirada contra o adversário. Eles não têm medo da verdade, é uma prioridade. O texto de Baumbach é bem mais palatável ao espectador, menos exaustivo do que o de Bergman.
  • Podemos pontuar aqui uma outra influência, Woody Allen. Seus filmes também são excessivamente falados, textos inteligentes; porém mais populares e menos densos que os de Bergman.
  • Em “Cenas de um Casamento”, nas cenas iniciais temos um marido, Erland Josephson, extremamente autoconfiante que não possui constrangimentos ao falar de si próprio. A esposa, Liv Ullmann (linda demais, meu Deus do Céu!!!), é frágil, insegura e mal consegue expressar sua importância enquanto indivíduo. Ela é a sombra de seu marido.
    No final, a situação se inverte. Alguma semelhança com o longa de Baumbach? 🤔
  • Ambos filmes têm uma cena de briga intensa entre o casal.
  • Marianne (Liv Ullmann) é advogada, especializada em divórcios.
  • Este é seu único filme que migrou para os palcos. Adaptado, produzido e dirigido por ele próprio, a peça estreou no Theater im Marstall, em Munique, Alemanha, em 1981. Posteriormente foi encenada e readaptada por diretores em vários teatros do mundo.

“História de um Casamento” foi rodado em película da Kodak, 35mm, com câmeras Panavision (mesmas usadas em Infiltrado na Klan) e Arri.

Essas são as minhas considerações sobre a estética e o visual de “História de um Casamento”, espero que tenham gostado!
Você notou alguma coisa diferente de mim? Me conta aqui nos comentários. 👇💬

Obrigada pela leitura e compartilhe com seus amigos!

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4 comentários em “Como o visual do filme “Historia de um Casamento” te influencia”

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