Como o vermelho conta a história de “Suspiria” (2018)14 min read

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ESTA ANÁLISE CONTÉM POSSÍVEIS SPOILERS.

No mês passado publiquei uma opinião sobre o remake de Suspiria, produzido em 2018 e pesquisando sobre o filme, descobri uma infinidade de informações interessantes. Tanto que rendeu esta publicação sobre a estética do filme!

Não podemos negar que Luca Guadagnino cria universos sofisticadamente atraentes e belíssimos. Ademais, o diretor sabe como nos impressionar com figurinos elegantes, adequados para os cenários exuberantes que se apresentam. Assim como, a iluminação é sempre primorosa e em harmonia com suas paletas de cores que saem do lugar-comum ao mesmo tempo que se adequam à realidade dos personagens.

Como Luca Guadagnino queria e como ficou no final

Como disse no meu artigo anterior, onde dei minha opinião sobre “Suspiria” e fiz uma pequena comparação com sua versão anterior, de 1977, o atual me agrada muito mais. Não apenas por seu visual, mas como a história também. Guadagnino transporta um conto dos anos 70, construído para ir ao encontro das expectativas de um público acostumado a ver com os olhos e se assustar com o sobrenatural, para os tempos atuais onde o horror está no psicológico, na mente.

Em primeiro lugar, a construção da fotografia principal começou em outubro de 2016. Mukdeeprom, diretor de Fotografia escalado por Guadagnino queria que Berlim parecesse muito sombria, muito triste. esta é uma ideia fácil de imaginar para a capital alemã no inverno. A diretora de arte, Inbal Weinberg observa: “Filmamos na Itália de outubro a dezembro e depois em Berlim em fevereiro e março de 2017.”
Nesse sentido, quanto à arquitetura, ela lembra: “Acho que nunca vi tantos tons de cinza”.

Algo que Guadagnino mencionou em uma de suas entrevistas, é que ele assistiu ao filme quando tinha 14 anos e pensou que um dia faria sua própria versão de “Suspiria”. Então, muito do sentimento que existe no filme tem a ver com suas emoções e suas memórias de quando assistiu ao filme pela primeira vez. Ele mesmo diz que, particularmente, isto é fazer cinema: evocar lembranças e sentimentos do passado, retratar suas experiências anteriores e transpô-las para a telona.

A paleta de cores e a luz em “Suspiria”

A paleta de cores desempenha importante papel no remake de Suspiria de 2018, pois está carregada de simbolismo. Embora venha de forma mais discreta, percebemos desde o início a presença do vermelho, como por exemplo nos sapatos de Patricia.

Ao contrário do que disse anteriormente, agora que observei e pesquisei melhor, vejo que o vermelho é a primeira cor do filme e isso está diretamente relacionado aos anseios e motivações de Luca para sua adaptação. Em outras palavras, quero dizer que ele é um amante do cinema de terror e já declarou que este não será seu único filme do gênero!

Nesse sentido, um dos fatos mais interessantes no conjunto de cores escolhido por Guadagnino é o fato de ser o extremo oposto do que Argento fez em sua versão. Se o anterior era uma explosão de cores fortes, brilhantes e saturadas, no atual temos tons sóbrios, beges, cinzas e o vermelho é fechado, bem mais comedido. Isto era algo desejado pelo diretor desde o planejamento do filme, pois, como apreciador do gênero, ele queria sangue e muito vermelho!

O simbolismo do vermelho

A princípio, tudo que vemos é completamente bege e assim permanece durante os dois primeiros terços do filme. Em algumas ocasiões o vermelho aparece, mas de forma contida. Por exemplo, no fundo das cenas, geralmente em tons escuros e em flashes aqui e ali. Como no body cor de vinho que Susie usa durante sua primeira apresentação na companhia de dança.

Crítica remake Suspiria 2018

O aspecto progressivo do surgimento do vermelho na obra pode sugerir seu enredo principal como um conto de paixão reprimida e o início do sentimento, o que justificaria o significado de seu título, “suspiro”.

Além disso, um outro motivo para o uso de vermelho como fio condutor do longa é a camada da maternidade provocada por Luca. “Suspiria” usa sua eventual transição de tons de terra para vermelho sangue como um código para a aceitação da maternidade e para o estabelecimento de uma nova geração. Inicialmente, assistimos a uma votação para o novo controle da cia de dança, que somente aceita mulheres. Como resultado, Helena Markos é eleita, a encarnação da Mãe Suspiriorum e que, posteriormente tem suas mentiras desvendadas por Susie Bannion.

Por sua vez, ela inicia sua jornada ingênua, tanto quanto os beges e cinzas do início do filme. Mas ela será preparada por Madame Blanc, para virar a salvadora de Markos que está doente, acompanhada de pequenos partes de vermelho.

remake suspiria 2018

Enfim, o desfecho do caminho de Suzy é lavado por vermelho ao extremo, com muito gore, nos lembrando muito a obra de Argento. A acolhida de suas novas funções é dominada por violência, é a verdadeira limpeza do legado de Markos, uma nova perspectiva para a cia. Sem mentiras, sem dor, sem opressão.

Direção de Arte

Ao contrário de seus interiores que são em grande parte tons crus, marrons e tons de ferrugem; os exteriores são azul-esverdeados e nublados. Não só é uma grande quebra do design visual de Argento, mas também é uma aposta brilhante e arriscada que vale a pena no final.

Pra começar, os cenários de “Suspiria” foram inspirados na arquitetura modernista de mestres como Le Corbusier e Adolf Loos, diz Inbal Weinberg, diretora de arte.

Em seguida, a designer disse que olhou para o modernismo primitivo para desenvolver a estética “esparsa e institucional” do filme. Ela fez referência não apenas à arquitetura que emergiu da influente escola Bauhaus, bem como aos projetos de arquitetos austríacos como Loos e Josef Hoffman. “Para o remake de Suspiria (2018), queríamos nos concentrar nos antepassados do modernismo, especialmente na arquitetura austríaca do início do século XX. Loos e Hoffman eram importantes, pois eram a ponte entre o final do século XIX e o que se tornaria Bauhaus. Então você ainda podia sentir esse classicismo”, disse Weinberg a revista Dezeen. Segundo Inbal, “Os cenários têm duas camadas: uma é muito autêntica ao tempo e lugar que está baseado, em Berlim de 1977, enquanto a outra camada é um submundo bruxo onde coisas estranhas acontecem”.

Em continuidade, ela pontua: “Quando estávamos projetando a camada realista, nosso objetivo era a autenticidade, então nos aprofundamos na pesquisa da época. Assistimos filmes que aconteceram em Berlim na década de 70. Nós realmente queríamos ficar o mais real possível.
Berlim na época era um lugar sombrio e muita coisa estava acontecendo no subsolo e esse espírito de anarquia. Mas arquitetônica e visualmente, era um lugar muito cinza, com um muro e em várias partes da cidade, havia se tornado uma terra sem ninguém.”

Hotel abandonado na Itália serviu de locação

A academia de dança em si está situada em um edifício feito de pedra no estilo Bauhaus, situado diretamente em frente ao muro de Berlim.

Na realidade, trata-se de um hotel abandonado, construído em 1912 na Itália, chamado Grand Hotel Campo dei Fiori. Weinberg e sua equipe modificaram para melhor se adequar ao contexto do filme.

“É para ser essa companhia de dança que existe há muito tempo”, disse Weinberg. “Não está claro quando realmente começou, então queríamos dar a ele uma sensação de história que não é de um período específico, mas se sente grandiosa.”

Figurino

A pessoa por trás das roupas lindas, chiques e diferentes do remake de Suspiria (2018), é Giulia Piersanti, que já trabalhou com ele em Me Chame pelo Seu Nome e Um Mergulho No Passado.

Embora grande parte do predomine os tons de cinza e bege, é através dos trajes que vemos os lampejos de cor que aparecem. Como dito anteriormente, o vermelho não é usado na mesma proporção ou gradação da obra de Argento, mas ainda desempenha sua importância no contexto da versão atual. Desde o cabelo ruivo vibrante de Susie, passando pelo body que ela usa, até as delicadas tulipas que decoram o quimono noturno de Madame Blanc.

O trabalho realizado por Piersanti é incrível, é cheio de significados, de símbolos, poderoso! Para ilustrar, um dos figurinos mais emblemáticos e potentes do filme, pegaremos àquela usada pelas dançarinas na apresentação principal do Volk. Segundo a designer os olhares para a criação não eram apenas integrais à estética do filme, mas à própria história: “Os figurinos na dança respondem ao movimento e ao ritmo, o que abre uma perspectiva totalmente nova”, explica.

remake suspiria 2018

“A energia criada pelas roupas vermelhas e o efeito do sangue pingando criado pelo peso das cordas, e a maneira como se movem a cada movimento afiado que as dançarinas fizeram, somam-se ao sentimento de medo e pavor das coisas que estão por vir – para mim, é essa sutileza que é vista ao longo do filme que torna os momentos dramáticos ainda mais aterrorizantes.”

Clicando aqui, você confere um artigo exclusivo sobre os figurinos de “Suspiria”.

Referências

O ano em que o filme de Argento foi lançado, 1978, serviu como inspiração para o remake do Suspiria de 2018, dirigido por Guadagnino. Este também é o ano do infâme outono alemão: uma série de eventos em torno do sequestro e assassinato do executivo Hanns Martin Schleyer pela Facção do Exército Vermelho e o sequestro de um avião da Lufthansa pela Frente Popular de Libertação da Palestina. O grupo exigiu USD 15.000.000 em troca dos reféns, bem como a libertação de 10 membros da RAF e dois palestinos presos – que inspiraram o filme de 1978, “Alemanha no Outono”, dirigido pelas lendas do Novo Cinema alemão, Rainer Werner Fassbinder, Alexander Kluge, Edgar Reitz e Volker Schlöndorff, entre outros.

Filmes relacionados

Para você que adorou o remake de Suspiria, produzido em 2018, fique ligado nessas dicas abaixo:

Se você gostou da história da Mãe Suspiriorum, saiba que ela faz parte de uma trilogia. Então não deixe de assistir ao original, bem como aos outros que fazem parte da série:
“Suspiria” / “A Mansão do Inferno” / “O Retorno da Maldição: Mãe das Lágrimas” – Dario Argento.

Na pegada de Argento, um bom terror com cores brilhantes pode ser assistido em “O Demônio de Neon” – Nicolas Winding Refn.

Com o mesmo ar de terror psicológico, você pode conferir “Cisne Negro” – Darren Aronofski.

Não deixe de conferir outros trabalhos de Luca Guadagnino, como por exemplo, “Me Chame pelo Seu Nome”.

Sem dúvida foi um trabalho muito bem organizado e em total harmonia pela equipe!
Espero que vocês tenham gostado desse guia para a estética de Suspiria!

Deixa aqui nos comentários qual foi o ponto que você achou mais interessante ou se você quer mais informações sobre alguma questão em específico! 💬⤵😉

Fontes: VOX | No Film School | Dazed | ASCMag

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1 comentário em “Como o vermelho conta a história de “Suspiria” (2018)”

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