Encontros e Desencontros11 min read

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Estou travada.

Charlotte

Lançado em 12-setembro-2003, hoje fazendo 15 anos, Encontros e Desencontros pode ser considerado um filme sobre o silêncio, sobre a dificuldade de comunicação ou até sobre a solidão. Eu prefiro ver como um filme sobre a descoberta de si e isso é algo que somente se consegue imerso em silêncio e estando sozinho, o que não necessariamente significa estar solitário.

Entramos no filme a partir da visão de Bob Harris, interpretado por Bill Murray, contemplando a paisagem de Tóquio pela janela de seu táxi. Ele é um ator que está indo fazer um comercial, recebendo um belo cachê para tal. Nossa jornada com ele será ambientada em Tóquio e constantemente veremos uma paisagem fria, com constante tons de azul e cinza. De fato, essas são as cores base da paleta escolhida pelo Diretor de Fotografia Lance Acord, além de iluminação local e natural.

Inicialmente assistimos Bob chegando em seu hotel e fazendo coisas corriqueiras, sempre sozinho, quando vai dormir, talvez pelo fuso horário, insônia.
Posteriormente, somos apresentados a Charlotte, que está passando pelo mesmo incômodo de insônia; embora ainda não saibamos quem é, mas sabemos que está acompanhada. A medida que o filme vai se desenrolando flagramos ambos passando pelas mesmas situações e com cenas bem semelhantes. Vejam abaixo quantas cenas teremos de Charlotte olhando pela janela. Uma das simbologias dessa ação é a busca pela liberdade e, de fato, eles se veem confinados no hotel, aqui o olhar deles diante da cidade é de confusão, de não saberem como explorar o que está ali embaixo, não entenderem como ir além dessas molduras que os cercam, de distância e melancolia.
Um pouco depois, lá pelos 40min de filme, ficamos sabendo que na verdade é assim que eles se sentem internamente: perdidos.

Sobre Charlotte, interpretada por Scarlett Johansson, sabemos que seu marido é um fotógrafo e que, ironicamente, pouco a enxerga. Isso é facilmente percebido em uma cena onde ela passa em frente a ele de calcinha e na cena abaixo quando a personagem de Ana Farris comete uma gafe e ele é condescendente com a atriz em detrimento da inteligência de Charlotte. Percebam o olhar de Charlie para a moça que é seu oposto: Ana Farris aparece com roupas da moda, incrivelmente magra (uma crítica aos velhos padrões de beleza aparece aqui!), cabelos exatamente loiros, sorridente, extrovertida; enquanto Charlotte pouco esboça sorrisos, roupas meio soltas, largas, o cabelo desarrumado, pouca ou nenhuma maquiagem.

“Ai, que ridícula, fútil”

Diante deste cenário, assistimos à moça em mais uma cena olhando a janela e temos uma bela tomada em plano aberto de Tóquio e seus inúmeros prédios, uma bela iluminação natural, (de novo) os tons cinzas e azuis.

Nesse mesmo dia é quando, finalmente, temos o encontro de Charlie e Bob conversando sobre relacionamentos e casamento. Aqui temos um tom mais quente, alguma descontração de ambas as partes e a iluminação local amarela faz com que tenhamos uma (falsa) impressão de conforto. Afirmo que seja falsa porque os tons azuis ainda estão presentes de fundo e acompanhados do ar melancólico e sincero do diálogo.

Gosto muito da cena onde Bob vai à piscina do hotel: quando ele mergulha não ouvimos o som externo e quando emerge, temos som novamente. Aliás, algo que gosto muito nos filmes de Sofia Coppola é a trilha sonora. Embora não ache que seja somente essa sua marca registrada, mas também a estética e sensibilidade. Amo isso!

Por falar em estética, nas cenas externas temos uma pequena diferença na paleta de cores, mas nada que destoe do conceito inicial, notamos também uma constante presença de curiosidade em seu olhar, a cabeça erguida pra explorar as vistas aéreas, tomadas das ruas com bastante movimento, como se estivéssemos acompanhando seus passos, o transporte local, neon e muito barulho pra evidenciar o sentimento cosmopolita de uma megalópole com cenas feitas com câmera na mão.

Nem mesmo em Kyoto, com sua bela natureza, temos grande diferença de cores.

Charlotte convida Bob para uma night japonesa, um dos pontos mais tensos do filme, quando ficam submetidos a um tiroteio. Entretanto, vemos uma grande aproximação dos dois e um dos poucos momentos de diversão real, sorrisos e bons sentimentos. Eu acredito que aqui tenha também uma pitadinha daquele velho ditado: “quem canta, seus males espanta”. Entretanto, a cena é assolada por um azul profundo e apenas uma cor diferente exposta na peruca de Charlotte. Acho que essa rosa, embora tenha bastante azul, vem simbolizar essa aproximação e um futuro clima que vemos na cena a seguir, que por sua vez, vem acompanhada de um belo enquadramento.

O melhor diálogo do filme, com certeza é nesta cena, quando Bob e Charlotte já estão mais próximos e conversam novamente sobre casamento, falam sobre carreira e é a segunda vez que temos seu interior verbalizado: ficamos sabendo do quanto ela se sente desvalorizada. Mas aqui, ela é finalmente ouvida por alguém.

Entrando na reta final do longa, temos a confirmação dos sentimentos de Bob quando ele fala ao telefone com sua esposa, reclamando uma série de mudanças necessárias, porém desconexas naquela conversa; o plano distante, observativo reforça sua postura para com a família. Isso fica ainda mais evidente quando Charlotte se decepciona com uma atitude tomada por ele na noite anterior. Isso está graficamente representado na forma como se dispõem a mesa durante o almoço e na desconfortável ausência de diálogo.

As cenas finais vão ao encontro das iniciais, temos travelling por Toquio, a cidade iluminada naturalmente, as placas, o neon+azul+cinza, barulho e tudo isso contemplado a partir da visão de Bob pela janela.

Sofia Coppola e Lance Acord provam que uma fotografia fria e melancólica pode ser esteticamente bonita e agradável aos olhos. Além disso, o filme nos mostra que uma viagem para o exterior pode ser uma oportunidade de autodescobrimento e uma jornada ao seu interior. Concluímos também que pode até ser divertida se encontramos um semelhante, fazendo com que suas dores sejam atenuadas porque se identificam e compartilham do mesmo.

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1 comentário em “Encontros e Desencontros”

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