Entenda como o figurino de Suspiria fala sobre o filme14 min read

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Pesquisando para o post sobre A Estética de Suspiria, encontrei tantas informações sobre o visual do filme que resolvi dedicar um artigo apenas ao seu figurino, assim como fiz em Janelas Indiscreta. Lembram?

Algo que comentei também é que Luca Guadagnino dá muita importância ao visual e às características referentes à aparência de seus filmes. Sendo assim, ele faz questão de criar um universo onde tanto os profissionais quanto os espectadores possam imergir naquela experiência.

Por mais que Guadagnino queira que você veja e ouça Suspiria, ele também deseja que você sinta. Aí que a figurinista Giulia Piersanti entra para “lançar seus feitiços”.

Piersanti já trabalhou com Guadagnino outras duas vezes antes, em “Um Mergulho No Passado” e “Me Chame Pelo Seu Nome”. Sim, ela é responsável shortinhos instantaneamente clássicos de Armie Hammer!
Porém, o cenário e as circunstâncias de Suspiria lhe deram a chance de criar um guarda-roupa mais extravagante do que os filmes anteriores.
Ao contrário de “Me Chame Pelo Seu Nome”, em que o desafio era o de não adicionar e ser minimalista, com Suspiria não havia limite. Piersanti é também designer freelancer e já trabalhou com marcas de luxo como Céline.

Veja abaixo alguns dos lindos figurinos produzidos pela designer:

Susie novata

Primeiramente, vamos falar sobre a transformação de Susie Bannion (Dakota Johnson), que pode ser observada a partir de suas roupas.

Ela chega em Berlim, vindo de Ohio, onde foi criada em uma comunidade religiosa e é visivelmente mais caseira do que as outras meninas da Cia de Dança Helena Markos.
Esses detalhes da história de origem são fundamentais para a estilista, a fim de conhecer as influências culturais dos personagens para os quais desenha: “A primeira vista, Susie é modesta e puritana, uma fugitiva de uma comunidade protestante. À medida que ela evolui para sua própria feminilidade e se torna mais aberta e forte, seu guarda-roupa muda.” segundo Piersanti.

Para os trajes anteriores de Susie, como por exemplo quando ela invade o escritório administrativo com Sara, ou em sua chegada a Berlim, Giulia conta que se inspirou na personagem de Diane Keaton em “Interiores” (1978). Na mesma proporção em que a personagem se torna mais cosmopolita e mais confiante, ela começa a mergulhar no guarda-roupa muito mais refinado de sua nova amiga, Sara (Mia Goth).

Sara espiã

Por outro lado, Sara é quem tem o armário mais invejável de qualquer personagem em Suspiria. A atriz Mia Goth usa todas as peças costuradas sob medida.
É como se ela tivesse nascido para isso, para ser uma pessoa sofisticada que estuda artes na Berlim da Guerra Fria.

De acordo com Piersanti, Sara é burguesa e refinada, sua inspiração veio do estilo de uma modelo da revista Sybille, oriunda da República Democrática Alemã .
Trata-se de uma publicação de cultura e moda que era popular na época.
“Todos os looks e acessórios dela são coordenados. Todas as roupas que fiz para ela estão em caramelos, marrons e sobreposições”, conta a designer. Além disso, seu cabelo está sempre impecável.

Para exemplificar, podemos citar como um de seus looks mais marcantes aquele usado em seu primeiro encontro secreto com o Dr. Klemperer.
Ela usa calças de seda crua com botas altas, amarelas, e camisa bege. Segundo Piersanti, essa roupa dá as silhuetas que ela amava em Sybille.

Nesse sentido, como Sara é, talvez, a mais bem vestida de toda a Alemanha, ela consegue ser elegante até mesmo enquanto bisbilhota o escritório da matrona na Academia em busca de pistas sobre o desaparecimento de outra dançarina: o grande vestido bege que ela usa é inspirado em uma foto de uma das estilistas favorita de Giulias, Anne Marie Beretta.

A maquiagem de Sara e o cabelo sempre agitado foram baseados na modelo e cantora Bebe Buell, que era popular na década de 1970. Que por sua vez, é mãe de Liv Tyler.

Madame Blanc

Madame Blanc suspiria figurino vestido marrom

À primeira vista, uma imagem de Tilda Swinton longilínea, vestindo um elegante vestido marrom, foi uma imagem indestrutível do primeiro trailer de Suspiria. Com Guadagnino se esforçando para refazer um dos filmes de terror mais coloridos e esteticamente icônicos de todos os tempos, a prevalência de marrons e cinzas permite que o público saiba que esta versão do filme teria sua marca visual própria.

Apesar de uma certa tendência ao maximalismo, o diretor e sua figurinista evitaram a extravagância desmedida. Sendo assim, apesar de seu poder e posição perto do topo da hierarquia do clã, foi definida uma sensibilidade simples e pragmática para o visual de Madame Blanc. Ela é muito disciplinada e essencial em sua escolha de guarda-roupa, com roupas que priorizam o movimento enquanto dança. Ela não diferencia suas roupas de trabalho. Seu uniforme do dia-a-dia é seu estilo.

Posteriormente notamos que o aspecto do apartamento de Blanc também ajudou a destacar as opções mais ousadas que ela faria mais tarde.

Em um jantar casual

Sob o mesmo ponto de vista, temos uma cena perfeita em “Suspiria” que consiste em Susie e Blanc jantando em seu apartamento.
É uma conversa mais íntima com a novata, com seu penteado simplório, e Blanc, que em vez de seu vestido de comprido, agora está descansando em um glorioso quimono.

Consequentemente, é uma mudança impactante do que vimos antes, onde ela estava em seu figurino de professora, simples e funcional. A designer diz que queria que ela fosse à moda antiga, tornando-a mais bem vestida e teatral enquanto estava de camisola, na privacidade de seus aposentos.

Com exceção de poucas peças, quase todo o guarda-roupa de “Suspiria” foi feito sob medida. A figurinista disse à Vogue que os sapatos para a produção foram projetados por Francesco Russo.
Assim também, grande parte do tecido impresso foi originado de uma fábrica que trabalha com casas de moda de primeira linha como Prada e Louis Vuitton.

Os trajes volk

De acordo com a declaração do coreógrafo Damien Jalet ao site Vulture, o número principal de dança de Suspiria,chamado Volk, foi modelado após uma peça que ele havia criado anteriormente chamada Les Médusés.

Os dançarinos de Les Médusés usavam trajes de corda branca que eram usados como base para as novas roupas projetadas por Piersanti para o filme. “Me inspirei em uma performance dos anos 1970 do artista Christo, que usa cordas na maior parte de seu trabalho”, explica ela, incluindo o fotógrafo Nobuyoshi Araki como um de seus pontos de referência para o visual da Volk. 

“Eu também olhei para técnicas de escravidão para aprender a amarrar as cordas em uma forma de estrela de bruxaria no corpo dos dançarinos. Compramos medidores e metros de corda de escravidão vermelha de sex shops. Também amarrei os nós ao redor dos braços e deixei todas as cordas penduradas para enfatizar os movimentos afiados da coreografia e da música rítmica.” E sabe o que mais esses fios vermelhos balançando podem nos lembrar? Sangue pingando!

Aquele roupão rosa

Um dos melhores artigos de vestuário de todo o filme é um robe rosa que vemos primeiro em Sara e depois em Susie. “Este quimono rosa é uma peça que escolhi por sua cor”, diz a figurinista. “Quando a personagem de Susie muda, à medida que ela fica mais segura e sofisticada, ela pega suas roupas de Sara para evoluir seu visual, começando pelo quimono rosa.” Uma vez que a tragédia se passa pela pobre Sara, a aparência de Susie no manto ajuda a significar sua transição completa de uma novata inexperiente para uma força poderosa aliada à Academia Markos. Também é fabuloso.

A última ceia de Susie

Logo após sua performance no Volk, Susie vai ao jantar da cia de Dança. Ela está a caminho de confrontar o destino e sabe que vai assumir um lugar entre os clãs, ainda que não entenda o significado. Ela está irradiando uma confiança silenciosa. Ou seja, a tímida garota de Ohio se despede para dar lugar à uma mulher pronta para reivindicar seu verdadeiro poder.

Giulia afirma que desenhou a estampa no vestido dela inspirada nos desenhos de Louise Bourgeois. Ela explica que são ossos de quadril de mulheres espalhados feitos para parecer galhos de cerejeiras. Há um tema recorrente de arquétipos do corpo feminino — como cabelos para os vestidos de sábado, braços, pernas e vaginas — reinterpretados em estampas dos anos 70 para blusas e vestidos, que fizemos no ateliê.

E você, também pensou que era apenas um vestido preto chique com belas costuras douradas?!

O ato final

Talvez você não saiba, mas as paredes da sala onde acontece o ato final e mais selvagem de “Suspiria” foi artesanalmente desenhada.

Com a finalidade de imprimir textura ao ambiente, a equipe passou semanas tecendo fios de fibra de cânhamo em tranças e criando massas esculturais semelhantes a cabelos. Conceitualmente, foi definido que a textura das parede é o cabelo das vítimas. 😨

Nesse sentido, Piersanti disse ao The Wall Street Journal que, os vestidos foram feitos de extensões reais de cabelo humano, e são inspirados pelas performances da artista Rebecca Horn e pelo designer Martin Margiela. Segundo ela, cada um dos vestidos de cabelo foram feitos individualmente e envoltos em diferentes padronagens.
Assim como o cabelo pendurado nas paredes, as extensões nos vestidos foram feitas para vir de vítimas anteriores de sacrifícios de bruxas.

Esta cena levou uma semana para ser gravada e envolveu baldes de sangue, que tiveram que ser delicadamente lavados e penteados de tranças no final de cada dia de filmagem.

As protagonistas do ato

Quanto aos nossos ícones de estilo em destaque, Blanc e Susie, seus figurinos também contam uma história. Susie removeu seu vestido de jantar preto carregado de ossos neste momento e se apoderou de um quimono marrom, indo de camadas modestas no início para “mais aberto, forte” e confortável com seu corpo nu.

Enquanto isso, Blanc, guardou seu visual mais extravagante para a ocasião mais especial das bruxas. “Seu vestido vermelho foi inspirado em uma foto antiga de um vestido madame Grès”, diz Piersanti, referindo-se a designer de moda do início do século XX que fundou a casa de moda de alta costura Grès. De acordo com a figurinista, todo o guarda-roupa da Madame Blanc é uma reinterpretação de um vestido parecido com uma camiseta. Aqui, eu queria que ela tivesse sua própria interpretação de algo cerimonial sem ser o óbvio.

Fonte: Vulture / Dazed

Sobre o vermelho e o cinza

No artigo sobre a Estética do Filme – Suspiria eu contei sobre o que a paleta de cores fala sobre o filme e, principalmente, sobre a função do cinza e do vermelho.
Do mesmo modo, expliquei um pouco mais sobre as roupas cinzas que Susie usa e o body vermelho que ela usa em sua apresentação teste. Não deixa de conferir!

Em resumo, toda a parte estética de Suspiria foi baseada a partir de muito planejamento e tudo tem seu significado. A obra pode até ter desagradado alguns fãs da versão anterior, mas inegavelmente é uma refilmagem original e singular, que tem vida própria.

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