Entrevista com a diretora Sol Berruezo de Mamãe, Mamãe, Mamãe6 min read

Like
Like Love Haha Wow Sad Angry

Eu adoraria que essa entrevista tivesse sido um vídeo, porém, eu tive problemas técnicos com meu gravador de tela e vamos ficar em texto mesmo. A entrevista foi pela Plataforma Google Meet, que não permite mais gravação, somente para planos premium.
Abrimos a entrevista onde eu parabenizei a Sol Berruezo por todos os prêmios aos quais Mamá, Mamá, Mamá recebeu e foi indicado, foi muito merecido!

Sol Berruezo Pichon-Riviére

planejamento do filme

  • Este foi seu primeiro filme e você escolheu um tema bastante desafiador para todos nós, em qualquer idade. Você foi além e inseriu isso no universo de crianças e adolescentes. De onde veio sua inspiração? Como você tomou a decisão de falar sobre isso?

Sol: A ideia de falar sobre morte veio do fato de pensar muito sobre esse assunto e do fato de nunca ter tido uma experiencia real, ninguém da minha família nunca faleceu e, portanto, achei interessante falar sobre isso. Eu penso que muito de quem somos vêm da identidade dessas pessoas que vivem conosco, que fazem parte da nossa vida, dos meus pais e quando eles morrerem uma parte de mim irá com eles.

Na minha casa somos 4 irmãs, eu tenho 3 irmãs mais novas e nossa relação sempre foi assim, cercada de carinho, de amor e eu queria que isso fosse passado para o filme também. A ideia inicial era de retratar uma relação entre irmãs. Na verdade, minhas irmãs foram minhas primeiras atrizes, pois quando comecei a estudar cinema, elas encenavam meus trabalhos. Eu procurei também adicionar diálogos que fossem absurdos pois é assim que acontece na infância.

Nesse sentido, durante as memórias da Cleo, não só ela se lembra da irmã, como também cria novas lembranças, de coisas que nunca aconteceram.

Mas eu pensava que o filme precisava ter uma carga dramática também e foi somente depois que tive essa ideia de adicionar um evento trágico. E é este evento que gera a aproximação das primas. Ao mesmo tempo, foi necessário muito cuidado ao tratar este tema com crianças pois é muito delicado. Então o filme não é só drama, ele tem seus momentos de comédia e eu percebi isso durante a exibição dele no Festival de Berlin, que o público riu em momentos que nem eu imaginei que aconteceria.

A diretora Lucile Hadzihalilovic faz isso muito bem em seus filmes, especialmente em Inocência (2004), ela junta um lado sombrio e um lado mais leve das crianças. Temos uma tendência a achar que crianças não sentem ou não percebem eventos dramáticos, mas elas sentem e são afetadas. Mas acho que isso é muito normal e comum na vida, termos momentos mais leves mesmo em situações dramáticas.

  • De alguma forma seu filme me lembrou muito “As Virgens Suicidas” de Sofia Coppola e o turco “Cinco Graças”. Ambos falam sobre garotas jovens, adolescentes, que passaram por algum trauma, assim como o seu. Esses filmes retratam essas meninas confinadas em suas casas em boa parte do tempo. Você acha que a mensagem é de que ambientes fora dos limites da casa são perigosos pra elas? Como você enxerga que isso se relaciona com o mundo feminino?

Sol: Eu acho que tem uma questão de proteção com meninas e acho que justamente pelo fato de serem meninas. Eu senti isso durante a minha criação, que existia um medo dos meus pais em me deixarem sair sozinha. Então no filme tem a floresta, tem a rua que traz o medo, que é desconhecido.

E até por isso eu pensei em trazer a outra personagem, Aylin, que vem de outra cultura, outra sociedade e ela traz os mesmos medos. Ao mesmo tempo isso se mistura à imaginação delas, com ideias de estupro, de sequestro e morte.

  • Eu interrompo: confesso que fiquei muito apreensiva pelas meninas quando elas entram naquela floresta, pensando o que iria acontecer. Aí a Cleo vai se perdendo das outras e aumentou minha tensão porque pensei nas mães chegando em casa e não encontrando as filhas.

Que bom que você conseguiu sentir essa tensão!

o visual

  • A maior parte da sua equipe era composta de mulheres, apenas 2 homens. Como foi trabalhar com elas?

Sol: Sim, os homens entraram na parte de pós produção, eram 3 na verdade e todos na parte de som.

Inicialmente o filme foi escrito por mim e as produtoras eram duas mulheres também, então pensei por que não incluir mais pessoas na equipe técnica que também sejam mulheres? E assim foi se formando a equipe. Nós passamos um mês na casa e foi uma forma de também fazer com que as atrizes se sentissem à vontade.

  • O foco do COLOR my days é falar sobre as cores e a direção de fotografia. Como você e a fotógrafa Rebeca Siqueira encontraram a paleta de cores e o visual do filme?

Sol: Eu conhecia o trabalho da Rebecca em digital e achava muito bonito, nós somos amigas e, portanto, convidei ela para participar do filme. Eu tinha uma ideia formada já de que queria que as cores fossem em tons pastéis e tinha essa parte onírica da Cleo que foi filmada em 35mm. Por isso tinha todo esse granulado, não era um filtro. Mas isso fazia parte da imaginação dela e deveria parecer como se fosse um filme antigo mesmo.

Eu também queria cores mais lavadas, em tons frios o que é algo incomum em filmes latino-americanos que usam tons e iluminação mais quente. Embora o filme seja ambientado no verão, ele deveria ser fotografado com tons frios.

  • Nesse sentido, algo que chamou minha atenção foi a direção de arte. É realmente muito interessante que, embora a casa aparente ser grande, as meninas habitam o mesmo quarto. Como foi desenvolver esses micro universos para cada uma delas?

Sol: Aquela não era a casa que elas moravam, era uma casa de verão e assim, todas elas ficavam no mesmo quarto. E era um lugar que tinha as coisas antigas delas e que muitas vezes passavam de uma para as outras.

Ali tinham muitos objetos que eram das minhas irmãs mais novas também e tinha essa orientação de que tudo deveria estar dentro da paleta de cores que tínhamos escolhido para que houvesse uma coerência visual.

Pra concluir, quero compartilhar com vocês que essa foi minha primeira entrevista em idade adulta e eu estava nervosíssima!
Esero que vocês tenham gostado e aproveitado para entender um pouco mais sobre o filme Mamãe, Mamãe, Mamãe. Não deixem de conferir minha opinião sobre o filme, clicando aqui. Ressalto que o filme está disponível na repescagem da Mostra, até 8-novembro-2020 e você pode adquirir seu ingresso na Mostra Play.

não deixe de me seguir nas redes sociais para ver mais posts sobre a mostra de cinema de são paulo 2020

LEIA também:


No post found!

Like
Like Love Haha Wow Sad Angry

1 comentário em “Entrevista com a diretora Sol Berruezo de Mamãe, Mamãe, Mamãe”

  1. Pingback: Rebeca Siqueira fala sobre fotografia do filme "Mamãe" | COLOR my days

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

error: Content is protected
Rolar para cima