Titane discute desvios de personalidade9 min read

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“Titane” é o segundo filme da diretora francesa Julia Ducornau e vencedor da Palma de Ouro em Cannes.. Provocativo e instigante, o longa aborda diversos assuntos de maneira singular. Por exemplo, destaco o luto não vivido, o desconforto como sinônimo de prazer e o despertar sexual.

Aqui temos a história de Alexia (Agathe Rousselle) que sofre um acidente enquanto criança, tendo uma placa de titânio inserida em sua cabeça. Daí surge o titulo do filme. Enquanto acompanhamos a apresentação de Alexia, sabemos que ela trabalha como dançarina em cima de carros e que ela desenvolveu uma estranha atração por automóveis. Nesse meio tempo, assassinatos ocorrem e um pai está em busca de seu filho desaparecido. Seria Alexia este rapaz tão procurado?

Influências de Julia Ducornau

O estranhamento no cinema de Julia Ducornau não é novidade se você já assistiu “Raw”. Nesse sentido, ela arrebata influencias do diretor canadense David Cronenberg, com cenas de body horror, gore, carros, máquinas e metais. Enquanto assistia, me lembrava muito de “Crash: Estranhos Prazeres” e “Gêmeos – Mórbida Semelhança”. De alguma forma, “Titane” é um filme de duplos. Como resultado, é através dessa ambiguidade e da forma andrógina da protagonista que a narrativa se constrói e dá seu tom.

Alexia sai de seu acidente transformada, com uma estranha atração por carros e por metais. Vemos isso quando ela tem uma relação sexual com uma colega de trabalho, Justine e fica atraída pelo piercing que ela carrega nos seios. Aliás, este piercing protagoniza uma das cenas mais desconfortáveis de “Titane”.

Desconforto é a segunda palavra de ordem no filme. Sendo assim, o despertar sexual de Alexia é carregado de incômodo e, aos poucos, entendemos que estes assuntos se misturam de forma inteligente. Ela sente prazer em provocar dor nos outros. Alexia o faz de forma antipática, distante e fria. Percebemos que ela não entrega nem um tantinho de remorso ou de identificação por suas vítimas. Identificação que ela própria não sente em qualquer grupo pelo qual navegue.

Agora vou falar sobre algumas partes do filme que são spoilers. Se você não quiser ler, clique aqui.

Spoilers

Logo sabemos que Alexia é a responsável pelos assassinatos que ocorrem em sua cidade. Desse ponto em diante, ela decide assumir a identidade de Adrien, o garoto desaparecido e filho de Vincent. Vincent Lindon interpreta seu personagem de forma incrível! Se até este momento faltava empatia em Alexia, isso cai por terra quando decide experienciar a vida no corpo de um desconhecido. Conforme falei anteriormente, a dualidade e ambiguidade estão presentes a todo momento em “Titane”.

Sob essa mesma perspectiva, a historia de Vincent é igualmente duvidosa e cheia de dualidades. De maneira calma e tranquila, percebemos que existia dentro daquele pai um luto não vivido, mal resolvido que se funde ao sentimento de falta que também reside em Alexia. A forma como ele aceita sua presença, sem perguntas, sem questionar absolutamente nada, deixa isso bastante explicito. A cena com a mãe de Adrien é extremamente desnecessária pois diversas situações já confirmavam nossas incertezas.

Vincent, até a chegada de Alexia, era um sujeito solitário, dedicado à sua aparência e ao trabalho. Apesar de ser forte, cheio de músculos, másculo; por dentro há um Vincent fraco e com um enorme vazio a ser preenchido. Em contrapartida, Alexia é seu oposto, o corpo franzino, as feições femininas, muito delicadas para um homem, geram comentários entre os bombeiros do quartel. Por outro lado, seu interior guarda incertezas, mas com uma enorme força, que ela por vezes transpõe ao trazer violência para suas relações. Os contatos físicos protagonizados por Alexia são sempre através da violência, da brutalidade. O encontro deles traz não apenas equilíbrio para o que andava descalibrado em seus interiores como também preenche a carência de sentimentos reais. De amor, de família, de companheirismo e até mesmo de sedução e sexo.

Entretanto, pra mim, é exatamente aqui que está o ponto fraco do filme. A riqueza de temas que “Titane” abrange é enorme e poderia ser bem mais explorado e aprofundado. A impressão que tive é que Julia quis fazer um filme mais comercial. Dessa forma, ela entrega mais respostas, o que torna o longo um pouco mais palatável ao grande público. Eu gostaria de ver muito mais dessa mistura de dor e prazer que abre a primeira parte do filme.

O apelo visual de “Titane”

Quem ainda não assistiu, pode esquecer o figurino fetichista e sadomasoquista que alguns filmes com esse mesmo tema trazem. Aqui, o que mais vemos são uniformes e roupas que nada valorizam o corpo franzino da protagonista. A responsável por esses trajes é Camille Champenois.

Mas isso não faz com que o visual da obra seja feio, simples ou pouco atraente. Muito pelo contrário, Ruben Impens (Alabama Monroe, Raw) traz uma fotografia bastante rica, com cores intensas, sombras, imagens grandes e amplas (16:9) que ressaltam a fisicalidade de “Titane”. Aliás, essa é a textura do filme, sempre voltada para os corpos, pra pele, pro que é palpável, que se pode tocar. Isso é muito evidente a todo momento, salta aos nossos olhos.

Impens diz em entrevista que Julia sabe exatamente o que quer, que escreve com as imagens em sua cabeça. Ele acrescenta que não há improvisos em suas filmagens. A atmosfera criada no filme não seria possível se suas escolhas para as cores fossem diferentes. Ele diz que não vê como “Titane” funcionaria com luzes verdes, por exemplo. E eu concordo muito.

As cores de “Titane”

Em seguida, a paleta de cores básica vem com pretos e cores que transitam no espectro entre azuis e vermelhos. Então temos toda uma gama de azuis, roxos, rosas, vermelhos e uma presença pontual de amarelos e laranjas. Estas últimas, fazem alusão ao fogo dos bombeiros, profissão de Vincent. Destaco o banheiro rosa da casa dele que contrasta com a ideia de masculinidade que acompanha o Corpo de Bombeiros e até mesmo sua forma física.

Ressalto também as interpretações impecáveis de Vincent Lindon e Agathe Rousselle. Eles dizem muito com olhares, silêncios, nem por um segundo duvidamos da relação entre eles. Embora a narrativa nos leve para o fantástico, o relacionamento entre eles parece muito real e possível. Muito bom! Em determinados momentos, existe um pouco de humor também e eles são os responsáveis para que nada caia no ridículo ou banal.

“Titane” é um filme de terror e suspense mas com aspectos emocionais e humanos. Apesar de faltar certa profundidade nos subtemas, tem impacto e nos instiga a refletir sobre o que Julia Ducornau deseja mostrar com suas imagens. Definitivamente, é uma diretora que ainda está construindo seu estilo mas que me desperta curiosidade e anseio por mais de seu trabalho.

Por fim, o vencedor da Palma de Ouro tem estreia marcada para 28 de janeiro de 2022, através do Mubi. Eu assisti no cinema, durante a Mostra Internacional de Cinema de SP.

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