Deixe a Luz do Sol Entrar aponta para as relações vazias5 min read

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Assisti “Deixe a Luz do Sol Entrar” no mês passado e foi meu primeiro contato com Claire Denis, diretora francesa de 76 anos. Eu já tinha ouvido muito falar dela, em especial por seu título “Bom Trabalho” que é considerado um marco em sua carreira.

Denis é conhecida por ser uma cineasta autoral e até onde cheguei com minhas leituras sobre sua filmografia, ela gosta de explorar as frágeis conexões entre as pessoas e o fascínio pelos prazeres e angústias da vida em sociedade.

Além de diretora, Claire Denis também é roteirista (assim como neste presente título) e, com isso, detém um controle maior sobre seus filmes. Aliás, eu acredito que longas que têm essa combinação de bons diretores com bons roteiristas apresentam mais chances de serem bons filmes. Sendo assim, acho importante sempre dar uma olhada na ficha técnica dos títulos antes de começar a assistir.

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Em “Deixe a Luz do Sol Entrar”, Claire traz Juliette Binoche como protagonista, na pele de Isabelle, uma mulher na casa dos seus 50 anos que não consegue se apaixonar e ter um relacionamento estável e verdadeiro.

Embora o filme traga uma personagem central mais madura, este não é um problema peculiar à esta faixa etária. É a realidade de muitas mulheres atualmente e por que não englobar os homens também. Quanto mais tecnologia há, parece que menos relacionamentos reais e tangíveis existem. “Deixe a Luz do Sol Entrar” estabelece uma personagem cercada de conexões frágeis e vazias. Ela tem uma filha que nunca vemos, um trabalho como artista plástica que nunca aparece na nossa tela. Sua principal motivação de vida aparenta ser única: sua vida afetiva.

Na tentativa de encontrar um parceiro, ela se diminui, entra em relações fadadas ao insucesso. Dessa forma, vi uma mulher que não se basta sozinha, que permanece presa em situações tóxicas, com homens fracos, grossos, inseguros, mal-educados. Indivíduos que a perseguem e só fazem mal.

É interessante observar que não presenciamos qualquer conversa interessante, culta ou inteligente entre Isabelle e seus pares ou amigos. Nesse sentido, em dado momento, um amigo diz que o companheiro que ela acaba de conhecer não é adequado pra ela devido às disparidades socioculturais. Achei um diálogo irônico porque também não vi qualquer superioridade nesse sentido por parte dela.

O que é muito interessante em “Deixe a Luz do Sol Entrar” é que ao mesmo tempo que Isabelle é a protagonista do longa, ela se coloca numa situação de coadjuvante da própria vida. Os reais protagonistas são aqueles homens, objetos de sua idealização de um parceiro ideal. E assim, ela como artista, vive de forma a não pertencer em sua própria obra.

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A passagem do tempo também é algo bastante curioso no título de Denis. Não conseguimos nos localizar adequadamente e encadear os fatos, colocá-los em uma linha do tempo. Tive um sentimento de que a vida de Isabelle era sempre a mesma, com poucas mudanças, independente do tempo.

A diretora tinha diversos caminhos para contar essa história, mas escolheu esta, de nos confundir com o tempo e transformar Isabelle numa personagem atemporal e multifacetada. Acho que aí está a tal genialidade de Claire Denis que li em diversos artigos ao longo do tempo. Fazer com que você tenha tantas emoções em apenas um único filme, algo raro hoje em dia. Esta, com toda a certeza, é uma diretora que preciso explorar mais.

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