Você não sabe o que é um bom filme19 min read

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Recentemente, em uma conversa, um grupo de pessoas se queixou muito de não consegui escolher um filme para assistir nos streamings. E muito falamos sobre este assunto: qual é exatamente o desafio em questão? Do meu ponto de vista, o obstáculo maior está em escolher um bom filme.  

Mas afinal de contas, o que seria um bom filme? 

Concordo, é um assunto polêmico, mas que merece ser argumentado, discutido. Porque eu acredito que gosto se discute sim. 😂 O que seria do cinema sem as reflexões e ponderações daqueles que assistem? Afinal, pra quê assistir um bom filme sem a possibilidade de defender seus pontos de vista sobre aquela obra? Mais do que isso, qual a finalidade de se fazer cinema se não for pra se expressar, pra emocionar os espectadores e provocar reflexões? 

Acredito também que a simples classificação de uma obra como ruim é um fator bastante limitante. Aplicar um rótulo negativo num filme pode facilmente encerrar nossas argumentações. Pra quê perder tempo falando de algo ruim? Pessoalmente, não gosto de falar mal de filmes ou diminui-los a um breve adjetivo, eu gosto de render o assunto mesmo. 

Quando um diretor, roteirista, idealiza um filme, ele coloca suas expectativas naquilo. Eu aprendi isso depois de ver entrevistas de toda a equipe de produção de “Venom”. Em 2018, quando abriu venda de ingressos para o primeiro filme, eu fiquei absolutamente histérica porque adoro Tom Hardy e porque acho a história do simbionte uma das mais interessantes da Marvel. Era a simbiose perfeita! Quando saí do cinema a decepção foi grande e no dia seguinte eu tava com a minha cara nos stories do Instagram falando como “Venom” era ruim. Depois de ler as entrevistas, ver comentários no Youtube e, meses depois, reassistir o filme na HBO, concluí que há mais o que extrair do filme. Ele não era tão ruim assim. 

Depois disso, evito criticar negativamente um filme em sua totalidade. Principalmente sem justificar esta avaliação. Eu busco mais, me esforço pra ver além, pra honrar as expectativas dos realizadores e o tanto de gente que se empenhou acreditando fazer um bom trabalho. Quer um bom exemplo? Leia minha opinião sobre “Spencer”, “Um Príncipe em NY 2“, “Atlântida”, “Emily em Paris”. 

Entretanto, eu vejo alguns fatores que podem sim servir como parâmetros para que possamos avaliar a qualidade de um título. Pega seu café porque vem é história…

Boa narrativa: a forma como se conta uma história tem bastante relevância para o conjunto. Mais importante do que ter um bom roteiro, a maneira como essa história toma vida faz toda a diferença. Geralmente, quem determina isto, é o diretor do filme e cada um tem seu estilo.

Eu gosto sempre de citar os famigerados remakes para exemplificar e com diretores de diferentes nacionalidades. Vamos falar sobre “Cidade dos Anjos” (Telecine), produção norte-americana, dirigido pelo inexpressivo Brad Silberling.  
Caso você não saiba, ele é uma refilmagem de “Asas do Desejo” (Looke / Belas Artes a La Carte), lançado em 1987, do diretor alemão Wim Wenders. Ambos possuem a mesma sinopse: dois anjos têm a função de guardar uma cidade. Eles observam a população e devem fornecer esperança até que um deles (Damiel  / Seth) se apaixona por uma mulher e fica tentado a desistir de sua imortalidade.

No alemão, temos uma obra cheia de camadas, onde o anjo Damiel  (interpretado por Bruno Ganz) é alguém curioso pela vida humana, mas sem caricaturas. Além disso, o título faz uma viagem pela Berlim ainda dividida, marcada pela guerra e prestes a se reunificar. Reunificação que é apresentada ao espectador através do relacionamento platônico de Damiel  com sua musa. É um filme delicado e com inúmeras vertentes de interpretação. 
O que a Los Angeles de “Cidade dos Anjos” tem para nos apresentar em 1998? Não sabemos, porque o diretor americano foca muito no cotidiano da personagem de Meg Ryan e no pseudo-relacionamento de Seth (Nicolas Cage) com ela
 
Somado a isso, o filme original traz um encantamento de Fotografia, mesmo sendo todo em preto e branco. Enquanto o americano, ainda no início da inserção de efeitos visuais, peca nesse quesito. 
 
Algo comum aos dois é a trilha sonora que se aproveita dos sucessos do momento para se popularizarem e criarem identificação com o público. Wim Wenders se aproveita da reputação de Nick Cave enquanto Silberling aposta na banda Goo Goo Dolls que faz uma faixa exclusiva para “Cidade dos Anjos”, Iris. 

Definitivamente, o seu apego sentimental com o filme vai mudar a sua consciência com um determinado filme. O seu momento faz diferença.  
Se você está grávida e assiste a um filme sobre uma jovem mãe passando por dificuldades durante a gravidez e os desafios consequentes; provavelmente este título irá te marcar de outra maneira. 
Aquele filme da adolescência, ou o que te despertou para o cinema, ou que assistiu com seus amigos num dia agradável etc. Tudo isso fará diferença na sua percepção do filme.

Eu já comentei por aqui a minha relação com “Jerry Maguire” (HBO Max). Do ponto de vista técnico, ele é bem redondinho, bem simples, mas tem um significado enorme pra mim. Lembro que ainda era adolescente quando minha prima me levou ao cinema pra assistir “Jerry Maguire”, o novo filme de Tom Cruise. Eu era uma consumidora voraz de todos os filmes dele, não perdia nenhum e vê-lo fazendo um filme de superação foi muita coisa para o meu coraçãozinho teen! 🥰 
Jerry é um agente de atletas que sofre uma traição por um de seus colegas e é demitida da empresa que ajudou a fundar. Ele é um profissional bem-sucedido, lindo e que arranca suspiros por onde passa. Desde as colegas de trabalho, até suas clientes. Se esse não é um personagem encantador, me digam o que seria!
Ele passa por todos as etapas de um roteiro constituído pela jornada do herói. Além disso, o filme faz um jogo de personagens onde Tom Cruise, já consolidado como um grande astro de Hollywood, tem um papel coadjuvante ao ser agente de atletas de alta performance. A forma como o filme o faz se reerguer é bastante envolvente. Ou seja, novamente estamos falando de histórias bem contadas, de narrativas que capturam sua atenção. Em paralelo, corre o relacionamento afetivo entre Dorothy (uma Renée Zellweger bem diferente de hoje) e Jerry. Ela também passa por uma transformação: sai de uma situação de invisibilidade a se casar com o rapaz mais popular da empresa.  
Me digam: como que a Nanda adolescente não iria se encantar com esse romance, gente?!

Acredito que o contexto em que vivemos também se pode levar em conta. Para exemplificar, posso citar o filme “Contágio” (Globoplay) que causou uma corrida aos streamings por reproduzir uma situação de Pandemia muito semelhante a que vivemos nos últimos anos.  
 
É totalmente diferente assistir um filme de guerra quando estamos assistindo todos os dias às notícias no jornal diário. Quem assistiu “Winter on Fire” (Netflix) sabe exatamente do que estou falando. O longa retrata o conflito vivido durante 93 dias na Ucrânia, na Praça de Maidan. É de cortar o coração traçar o paralelo do sofrimento desse povo em 2014 com o cenário atual. 💔😢 
 
Podemos incluir nessa “coleção” os filmes do tipo comfort movies, ou filmes conforto. São justamente esses que aquecem nossos corações em dias frios, de chuva. Você não quer mais nada na vida além de um final feliz ou até mesmo uma comédia que te arranque boas risadas. Eles curam até mesmo um coração partido, tal qual Bridget Jones já o fez com milhares de pessoas nesse mundão afora. Quem nunca voltou a acreditar no amor depois de assisti-la se entupindo de sorvete no sofá? 
 
Nesse mesmo sentido, eu não recomendaria filmes que mostram cenas de violência doméstica, abusos, depressão, consumo de drogas etc., para pessoas que estão vivendo esta condição. Não à toa muitos filmes já trazem avisos desse tipo antes de começar. Eles podem causar gatilhos e perturbação mental para muitos. 
 

Elementos técnicos são essenciais para um bom filme (direção, roteiro, fotografia, som etc.). 
Como já falei um pouco anteriormente, esta é uma parte que não se pode abandonar ao falar da qualidade de filmes. 
O cinema é uma arte de coletivo e quando todos esses fatores estão em harmonia, o filme é mais agradável de se ver. Por consequência, haverá maior adesão e convergência de que é um bom filme.

Não significa que irá te emocionar, mas certamente fará dele um bom filme. Veja como exemplo minha publicação sobre “Roma”. É um filme que não me despertou sentimentos, mas, praticamente, todos os elementos técnicos dele são muito bem executados. Quando subiram os créditos, me lembro de pensar:  

esse filme não me emociona, mas ele vai pro Oscar. É tecnicamente impecável!” 

Quando entendemos cada um desses elementos técnicos e constatamos sua boa execução fica difícil dizer que o filme é ruim. Não à toa levou o Oscar de Melhor Filme Internacional, Alfonso Cuarón levou de melhor Diretor e Diretor de Fotografia e concorreu em outras 7 categorias, totalizando 10 indicações! Sites renomados como IndieWire, The Hollywood Reporter, The Guardian deram nota 100 para o filme no agregador de notas da imprensa, o Metacritic
Aspectos que podem ser fundamentais para um bom filme: 

Ter uma direção concisa e consistente; 
Um roteiro criativo e autêntico; 
Uma fotografia coerente com o clima do filme e que te faça se transportar para dentro da história; 
A edição conseguir com eficácia determinar a atmosfera ao longa (acelerado, mais calmo, encadeamento harmônico de cenas); 
O som deve ser imersivo e estar bem coordenado com as ações em tela; 
Os cenários – O design de produção deve reproduzir a época/ambiente que está sendo retratado no filme; 

Nesse sentido, ter um entendimento básico desses itens fará com que você passe menos raiva no Oscar. Ou mais, depende né… 😂 
 

O último fator, mas não menos importante nesse papo aqui é o seu repertório. Ou seja, suas experiências também são importantes para definir o seu gosto. Se você assiste sempre a filmes produzidos pelos mesmos países, mesmos diretores, mesmos gêneros; possivelmente irá se impactar negativamente com algo que saia desse padrão estabelecido. Assim como as suas vivências pessoais e seus conhecimentos acerca de diversos assuntos também representam os seus gostos. A gente já falou mais acima como o seu momento vai repercutir nas suas reações ao avaliar um filme.

Por exemplo, conhecer artes plásticas, música clássica, autores clássicos irão enriquecer a sua absorção do que está vendo. Eu comentei aqui que em “Uma Mulher Alta” (2019), o diretor Kantemir Balagov buscou inspiração nas obras do pintor holandês Johannes Vermeer. E assim, é possível ver semelhanças não apenas com as obras de Vermeer como também com “Moça com Brinco de Pérola” (2003), título que conta como o pintor se inspirou para dar vida ao quadro homônimo ao filme. 
Aumentar seu repertório fará com que você veja diferentes perspectivas, viva outras experiências e reflita melhor sobre o cinema. Além disso, abre-se uma porta com caminho infinito para uma série de assuntos e temas antes inimaginados. Assistir filmes de épocas, regiões, diretores e histórias difíceis e desafiadores irá ampliar seu conjunto de valores culturais.

Saia da sua zona de conforto, procure, seja curioso e não se contente com o que o streaming te apresenta através dos algoritmos! 

Ao mesmo tempo que a Netflix chegou com uma proposta de popularização e acesso aos filmes, ela também trancafiou seus usuários numa espécie de casulo. Desde o momento em que decidiu utilizar um algoritmo para personalização de conteúdos, a Netflix te deixou preso na mesmice. E isso eles não te contaram em “O Dilema das Redes” …. espertinhos, né?! 😏 
Além disso, a empresa passou a apostar em produção de filmes e séries originais. Suas primeiras investidas foram a série “House of Cards”, o filme “Beasts of no Nation” e o documentário, já citado anteriormente, “Winter on Fire”. Os três são bem pontuados pela crítica especializada, porém, desde 2013 o streaming já produziu mais de 1500 originais. É impossível manter o nível de qualidade com esse volume tão grande de produções. E assim, eles entregam filmes cujo conteúdo é raso, óbvio e muitas vezes parecem iguais. São filmes enlatados, prontos para consumo, sem que exista qualquer pensamento, reflexão ou profundidade. 
 
Ultimamente houve uma tentativa de fazer algo diferente, chamando alguns diretores renomados, como por exemplo a dinamarquesa Susanne Bier que dirigiu “Bird Box”. Este fez um enorme barulho, a Netflix investiu muito no marketing, mas no fim das contas, o filme é meio sem graça, trabalha mal seus subtemas, não vai além. Nada comparado ao que Bier faz em “The Undoing”, série em parceria com a HBO ou “The Night Manager”, outra série, mas agora em parceria com a Prime Video. Se formos falar de filmes, Susanne Bier vai te fazer pensar muito com “Segunda Chance” (NetMovies). 
 

Outra tentativa de sucesso da Netflix foi com a alemã Nora Fingscheidt e seu “Imperdoável”. Perdoem-me o trocadilho, mas imperdoável foi Nora ter aceitado participar disso. O longa não traz metade da angústia que ela nos provoca com “System Crasher” (Globoplay). Vejo que Scorsese (O Irlandês), Noah Baumbach (História de um Casamento), David Fincher (Mank) conseguem espaço para filmes mais autorais e de melhor qualidade. Mas são exceção à regra. 
 
O valor dos planos da Netflix varia de R$25,90 (1 tela) a R$55,90 (4 telas/4k) mensal. Enquanto isso, streamings com curadoria, com filmes mais edificantes e clássicos, custam bem menos.  
A MUBI cobra no plano anual R$214,80 (R$17,90/mês). Eles trazem uma curadoria especial, trazem diretores renomados e filmes com qualidade de imagem superior aos demais. 
O Reserva Imovision custa R$ 24,50 mensais (teste por 7 dias gratuitos). Trazem filmes distribuídos pela Imovision no Brasil e títulos um pouco mais palatáveis para quem está se inserindo agora nos filmes alternativos à Hollywood
O Belas Artes a la Carte custa R$ 108,90 no plano anual ou R$ 9,90 mensais. Aqui você irá encontrar um acervo enorme com curadoria, filmes de diversos países e acesso aos lançamentos do cinema Belas Artes (SP). 

Será que eu te dei argumentos suficientes de como podemos avaliar um filme? Por fim, tudo que eu quero com esse espaço aqui é que possamos refletir o cinema com qualidade e argumentos relevantes. Você vem nessa comigo? 

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