Por que Roma é tão favorito?12 min read

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“Roma” já recebeu diversos prêmios, como um Globo de Ouro e um Critic’s Choice Awards de melhor Filme Estrangeiro, Critic’s Choice Awards de melhor Fotografia, assim como, Alfonso Cuarón levou um Globo de Ouro de melhor diretor e vários outros que você pode conferir aqui.
Recentemente foi nomeado em 10 categorias do Oscar, o maior reconhecimento da indústria do cinema.

Ficha Técnica

  • Título original: Roma
  • Data de lançamento: 14 de dezembro de 2018
  • Diretor: Alfonso Cuarón
  • Diretor de Fotografia: Alfonso Cuarón
  • Elenco: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Diego Cortina Autrey
  • Sinopse: Cidade do México, 1970. A rotina de uma família de classe média é controlada de maneira silenciosa por uma mulher (Yalitza Aparicio), que trabalha como babá e empregada doméstica. Durante um ano, diversos acontecimentos inesperados começam a afetar a vida de todos os moradores da casa, dando origem a uma série de mudanças, coletivas e pessoais.

Graças a um conjunto técnico impecável, “Roma” é um forte candidato a ser o grande vencedor nas premiações do circuito em 2019. Abaixo expus algumas análises das categorias onde o filme foi indicado:

Família feliz?

1. Roteiro Original

Muito já foi falado a respeito da história que Roma vem nos contar, sendo àquela mais íntima do diretor, onde ele retrata suas memórias de infância e a partir do olhar de Cleo (Yalitza Aparicio). O cotidiano dessa família tradicional é abalado por dois dramas que envolvem as mulheres mais representativas do filme, são acompanhados de perto e terminam sem pontas. Existe uma lógica para os acontecimentos assim como os diálogos, eles são factíveis e tem proximidade com a realidade que ainda se vive nos dias atuais.

2. Elenco

Yalitza Aparicio e Marina de Tavira foram indicadas a melhor atriz e melhor atriz coadjuvante respectivamente. A química entre elas é visível até nos olhares. Ambas passam por situações desconfortáveis e inesperadas em suas vidas, estão sofrendo, cada uma à sua forma. Entretanto, as semelhanças acabam por aí, uma vez que há um abismo de distância social e econômica entre elas. As interpretações são irretocáveis, as reações das personagens, gestual, tom de voz, tudo nelas parece real!

3. Direção de Fotografia

Na minha opinião, é nesse quesito que “Roma” mais brilha! Gravado em 65mm, com câmeras Alexa, é um preto e branco que eu nem sabia que existia: límpido, claro, vívido, sem qualquer ruído, as sombras são mais nítidas e parece que quase há cor! Sob o comando do próprio Cuarón, o diretor queria o gigante Emmanuel ‘Chivo’ Lubezki (vencedor do Oscar nesta categoria por “O Regresso”) nesta função, mas não foi possível em função de outros compromissos assumidos pelo profissional. Entretanto, o trabalho apresentado por Cuarón é extremamente lindo, intimista e ao mesmo tempo grandioso. A câmera cumpre exatamente um papel de observador da dinâmica daquelas pessoas, especialmente de Cleo, onde a máquina parece acompanhar cada passo.

São belos travellings, planos-sequencia e enquadramentos sutis. Cuarón declarou que gostaria sua câmera fosse como um fantasma do presente visitando o passado. Faz todo sentido visto que temos o filme rodado em preto e branco, como as fotos de antigamente, e uma completa ausência de pontos de vista subjetivos.

4. Direção de Arte

Do meu ponto de vista, esta é uma categoria complementar à Direção de Fotografia, uma vez que adornos, decoração dos sets, locação e outros elementos cenográficos compõem o plano que a câmera está captando. Para falar sobre esse ambiente vivo que permeia o filme, sua arquitetura e estilo, eu convidei uma especialista, a arquiteta Mariana Muraoka. Seu perfil no instagram, o @arqcine combina ofício e paixão, fala sobre a arquitetura no cinema de modo acessível e podemos aprender um pouco mais da união dessas duas artes. Veja aqui abaixo o olhar da Mariana sobre esses aspectos em Roma:

Nota-se que a arquitetura é uma arte muito valorizada nas obras cinematográficas, mas no longa de Alfonso Cuarón essa relação transcende-se, ficando evidente mesmo antes do início do filme já no título escolhido, “Roma”, referindo-se não à cidade italiana, e sim ao bairro com tendências vanguardistas habitado pela aristocracia da Cidade do México, onde o diretor cresceu e desenvolveu memórias tão fortes a ponto de exteriorizá-las em forma de um belíssimo filme indicado ao Oscar em 10 categorias.

A Casa

Para as gravações, uma casa do bairro foi reconfigurada a fim de assemelhar-se à habitada por Cuarón durante sua infância, tornando-se a principal locação utilizada, apresentada ao espectador já nas primeiras cenas, em que a câmera acompanha o caminhar da protagonista Cléo, a empregada da família, durante as tarefas domésticas realizadas, fazendo-a parecer uma parte integrante do lar (mais no sentido mais material do que afetivo da expressão).

A residência adquire um papel bastante emblemático, pois além de ser o palco para grande parte das relações vividas, ela é a materialização do estilo de vida das principais personagens. Sua arquitetura, tem traços do Art Déco nos metais trabalhados presentes no portão, janelas e na escada central, frutos do design industrial de produção em série, refletindo um certo gosto pelo “futurismo” e pela ostentação material, esta última mais perceptível na cena em que a família assiste com encanto ao pai estacionando um carro que mal cabe na garagem, priorizando o design e valor financeiro mesmo que isso cause transtornos e desconforto.
Uma enorme quantidade de livros faz parte da decoração, presentes nas estantes do hall, da sala de estar, da circulação do pavimento superior e nos móveis na sala de televisão, dando indícios dos hábitos da família cujo pai é pesquisador e os filhos gabam-se de suas notas altas, zombando da irmã quando esta não sabe responder onde fica Quebéc.

Apesar de verbalizarem várias vezes o seu amor por Cléo, esse amor não parece ser o suficiente para tratá-la como um membro da família, e a segregação fica evidente nos espaços reservados para ela na residência, um quartinho e um banheiro separados do corpo da casa dos patrões, com acesso por uma escada descoberta, ainda que durante o filme não seja mostrado ela acessando-o sob a chuva, fica claro que para os empregados não há proteção contra intempéries. A decoração dos espaços também evidencia essa separação, todos os ambientes da casa são repletos de adornos, porém enquanto os adornos das áreas sociais são livros, quadros e abajures e os dos quartos das crianças são os brinquedos, o quarto das empregadas é lotado de roupas para passar e dobrar, como que para fazê-las lembrar que seu papel na residência é servir… Trabalhar e servir. Isso fica claro na cena do terraço em que Cléo, brincando com Pepe deita-se fingindo estar morta, o fato de deitar em meio a um dia de serviço, deixando de lado as roupas que estavam para lavar e pendurar, faz-lhe gostar de “estar morta”.

A família dá-lhe a liberdade de frequentar todos os ambientes da residência, desde que esteja trabalhando, num único momento em que a menina tomada pelo sentimento familiar e pelo carinho com que as crianças lhe tratam senta-se no chão para assistir televisão com a família, a patroa pede-lhe um chá, lembrando-a que seu lugar é na cozinha, local onde apenas os empregados entram no decorrer da história, enquanto os membros da família são mostrados geralmente no setor social da residência.
A sensação de controle e pertencimento a determinados espaços é estendida também aos animais: os pássaros são divididos por casais em gaiolas restritas, e o cachorro habita o pequeno corredor externo, fazendo ali suas necessidades e distraindo-se com o vulto de quem passa em frente ao portão, não se sabe se em algum momento o levam para passear na rua, apenas o vemos sendo segurado pela coleira cada vez que o portão se abre.

Em contraposição à linearidade dos acontecimentos intra-residenciais tem-se a rua como um organismo vivo, onde a quebra do marasmo acontece, onde os encontros inesperados ocorrem. Ao sair na calçada já é possível ver uma banda passando, no caminho do cinema encontra-se um parente que imaginavam estar viajando, ao sair para fazer compras depara-se com uma manifestação estudantil, e engarrafamentos formam-se nos momentos menos esperados.

Por ser um filme em preto e branco, percebe-se a utilização de padronagens e texturas tanto no figurino como na decoração, a fim de trazer movimento e interessantes jogos de luz e sombra, bem como na arquitetura o uso extensivo do vidro permitindo a entrada de iluminação natural, como a claraboia sobre o hall de entrada onde localiza-se a escada.

Marcando a integração da arquitetura com o comportamento dos moradores, assim como as personagens vão ganhando marcas (emocionais) no decorrer da história, a casa também adquire “cicatrizes” dos momentos vividos em seu interior, a porta de entrada passa a ter um buraco, as paredes da garagem sofrem impactos, os livros saem das estantes, e por fim a distribuição dos quartos é reconfigurada.

5. Edição de Som / Mixagem de Som

Vejo o som de um filme como algo também complementar à sua Fotografia e, novamente, é um quesito impecável aqui: o som da água jogada no quintal durante a abertura, o motor do carro, as ondas do mar, tudo é ouvido nitidamente.

6. Direção / Melhor Filme / Melhor Filme Estrangeiro

Uma vez que o diretor é o responsável por toda a harmonia que acontece na realização de um filme, é natural que Cuarón tenha sido indicado como melhor diretor e que “Roma” tenha se classificado para ambas categorias de melhor filme e melhor filme estrangeiro, uma vez que a produção é mexicana. Acho que o diretor soube orquestrar muito bem todos os aspectos técnicos de sua obra.

Crítica

Eu, particularmente, achei o ritmo um pouco lento, poderia ter 30 minutos a menos e devo confessar, que, não foi um filme que me tocou e nem me arrancou lágrimas. O terceiro ato me trouxe um pouco mais de emoção, de ansiedade e conta com cenas realmente sensíveis, especialmente a da praia onde há uma completa sinergia do elenco, existe uma luz solar ardente, a locação, tudo funciona perfeitamente para culminar num abraço comovente. Não a toa é a cena do cartaz do filme, ela tem a função de evidenciar o sentimento de família e eu gosto do contraponto que a cena final faz.

Acho que a história ainda dialoga com a realidade que vivemos hoje, onde ainda há pessoas como Cleo por aí, que trabalham em casas há anos, são consideradas da família, mas nem tanto! Na hora de preparar o chá, a obrigação de sair da frente da TV para prepara-lo é dela.

Acredito que justamente por tudo em “Roma” ser tão milimetricamente perfeito, ajustado e colocado não me emocionou, porém, reconheço seu gigantismo técnico e adoraria assisti-lo na telona. Dos indicados ao Oscar de melhor filme, “Nasce Uma Estrela” e “Pantera Negra” foram àqueles que mais me impactaram.


Gostaram da colaboração da Mariana? Não deixem de segui-la no instagram para aprender mais sobre arquitetura no cinema, ela tem belíssimas análises!

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2 comentários em “Por que Roma é tão favorito?”

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