O melhor filme de presidiário de todos os tempos!11 min read

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Eu não era mau. Nem tanto. E ainda tenho meus princípios.

Michael Peterson

Em 29-set-2018, o diretor Nicolas Winding Refn fez aniversário e decidi homenageá-lo fazendo uma crítica sobre Bronson. Filme que merece e muito ser assistido, principalmente pela excelente atuação de Tom Hardy, que também está sendo muito falado nos últimos dias devido a iminente estreia de “Venom”.

Para quem não o conhece, aqui vai uma breve biografia do diretor:

Nascido na Dinamarca e criado em Nova Iorque, Nicolas Winding Refn tem histórico de ultraviolência em seus filmes. Enquanto seus conterrâneos Lars Von Trier e Thomas Vinterberg lançavam o Dogma 95, Refn escolheu um cinema mais comercial e lançou “Pusher”, em 1996, com inúmeras cenas de ação e referências a Quentin Tarantino.
 Posteriormente, foi lançado “Bleeder”, que fez com que Refn alcançasse notoriedade fora da Dinamarca tendo sido exibido no Festival de Veneza.
 Seu primeiro filme em língua inglesa foi “Medo X” em 2003. A recepção morna fez o diretor voltar a filmar na Dinamarca, onde realizou duas sequências da franquia “Pusher”, “Pusher II — Mãos de Sangue e Pusher III: O Anjo da Morte.
 
Em 2008, o diretor lançou “Bronson”, que iremos abordar aqui e em 2009, lançou “O Guerreiro Silencioso” com o ator dinamarquês Mads Mikkelsen.
 Em 2011, “Drive” consagrou Nicolas Refn com o premio de melhor diretor no Festival de Cannes, foi seu primeiro filme em Hollywood, seu primeiro grande orçamento (USD 15 milhões) e seu primeiro protagonista de peso, Ryan Gosling.
 Depois disso, o diretor fez em 2013 “Só Deus Perdoa” e “Demônio de Neon”. Mais informações em Wikipedia e no IMDB.

  • Título original: Bronson
  • Data de lançamento: 13 de março de 2009
  • Diretor: Nicolas Winding Refn
  • Diretor de Fotografia: Larry Smith
  • Elenco: Tom Hardy, Kelly Adams, Luing Andrews
  • Sinopse: Em 1974, Michael Peterson resolve assaltar uma agência dos correios, não de olho no dinheiro, mas sim pela fama que poderia conquistar a partir disso. Condenado a sete anos de prisão por seu crime, passou mais de trinta só na solitária devido a seu mau comportamento, ficando conhecido pelo nome de seu alter-ego, Charles Bronson, e sendo considerado o preso mais violento de toda a Inglaterra.

Confesso que não assisti muitos filmes de Nicolas Winding Refn, apenas este e “Drive”, mas desse pouco, gosto muito de como o diretor tende a mudar a estrutura de suas obras. “Bronson” poderia ser considerado mais um filme sobre prisioneiros, mas não o faz simplesmente. É um filme violento, com uma das melhores atuações de Tom Hardy (não à toa foi o filme que abriu portas para obras mais importantes), que traz um sentido filosófico para seu personagem principal, cores contrastantes e subverte a narrativa de um encarcerado.

O livro de Michel Foucault, “Vigiar e Punir: O Nascimento da Prisão”, descreve falhas da modernidade através de uma análise do sistema prisional na sociedade ocidental. Foucault apresenta o sistema penal da era moderna como uma rede abrangente que se estende a fábricas, escolas e hospitais. Uma comparação entre o isolamento de doentes e a divisão das comunidades durante uma epidemia introduz esse conceito. Sua sugestão é que a ilusão de segurança apresentada pela quarentena de uma comunidade é, de fato, mais perigosa do que a alternativa fornecida pelo cenário de epidemia.
 Mas por que eu abordei Foucault? Este pensador discute o conceito do Pan-Óptico, termo utilizado para uma penitenciária ideal, idealizada pelo filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham em 1785, que permite a um único vigilante observar todos os prisioneiros, sem que saibam se estão ou não sendo observados. O medo e o receio de não saberem se estão a ser observados leva-os a adotar o comportamento desejado pelo vigia (Saiba mais sobre o Pan-Óptico: Wikipedia). Foucault estende isso à norma da sociedade, já que a individualização e a visibilidade despojaram o homem não apenas de sua liberdade, mas também de seu poder pessoal.

Assim como em outros filmes de presidiários, somos apresentados a Michael Peterson desde sua infância. Nesta cena temos o rapaz sendo observado por seus pais num berço, mas vejam novamente (!).

Ele está atrás de grades, sob vigilância de autoridades e controladores. Poderia ser um presságio para seu destino cruel que veremos em seguida? Sim. Mas de acordo com as informações que trouxe mais acima, podemos observar o pequeno Bronson em uma espécie de Pan-Óptico. Porém, ao longo do filme, nunca vemos o garoto sendo disciplinado por tais figuras, ao contrário do que acontece com os policiais que são violentos ao extremo durante sua vida carcerária.

A lição que podemos tirar das ideias de Foucault em “Bronson” é que tanto o mundo externo quanto o interno de Bronson são pan-ópticos. Longe de ser um drama biográfico, Refn filma a luta de Charlie em ser reconhecido, a busca da fama e a todo momento vemos que isso irá leva-lo ao isolamento.

Cores e Fotografia

Sob a ótica das cores, temos um conjunto muito feliz do ponto de vista emocional. Podemos notar que durante as cenas de encarceramento há bastante presença de amarelo, marrom, cinza e preto. Qual cor você pensa quando imagina uma penitenciária, cadeia? Eu penso imediatamente em cinza e branco, que traz uma sensação de frieza e confinamento. O amarelo é utilizado para dar o efeito de sujo, de enauseante, incômodo; o marrom traz o feio, o hostil. A todo momento que Charlie está se deslocando entre prisões, temos diferentes tonalidades de amarelo e marrom, o que traz bastante desconforto.

“Bronson” não segue o curso natural de filmes sobre encarcerados, podemos observar uma mudança na narrativa do gênero onde Refn aborda uma estrutura um tanto quanto fora da realidade e um ponto de vista feminino, como assim exposto por ele.
 Vemos a história contada pelo próprio Bronson, a exemplo de suas constantes entradas em cima do palco. Isso traz um poder sob o curso do filme, como se ele fosse o diretor e roteirista do que está sendo contado; mas evidencia também sua incapacidade de entendimento com a situação, visto que essas performances podem ser consideradas sonhos do protagonista.

Ocasionalmente, temos outros elementos para confirmar que o que está sendo exibido é verdade, como por exemplo estas imagens que são de fatos ocorridos na época.

Um outro aspecto muito frequente em filmes típicos de presidiários é que eles são sempre mostrados como vítimas do sistema, oprimidos. Aqui temos um preso que adentra as celas onde viveu, nomeando-as como um quarto de hotel, tomando-as como suas. O ângulo médio da câmera também contribui para explicitar isso.

A nudez, dentro do contexto carcerário, pode ser considerada como ponto de vulnerabilidade, porém Charlie está sempre pronto para briga quando nu. E é aí que se confirma a subversão da visão masculina que é comum a estas obras e a paleta de cores utilizada vem pra reforçar esse significado.

Nas cenas onde ele esteve livre, por apenas 69 dias, temos uma tonalidade quente os ambientes por onde transita tem um aspecto feminino. Novamente, sob uma ótica de filmes de presidiários, vemos Bronson com outra atitude em cenas típicas onde ele deveria ser comumente retratado como “o machão”.

That’s very strong.

Sua atividade profissional durante esse tempo, foi de lutador de luta livre, seu empresário era um homem gay ou talvez queer, expressão que permeia esta parte do filme. Não podemos esquecer que em uma das cenas no hospício toca Pet Shop Boys — “It’s a Sin”, musica considerada um hino gay, além de termos diversas cenas com conotação fálica.

Nas cenas abaixo, temos seu corpo contemplado e objetificado assim como se fazem com corpos femininos em filmes com ponto de vista masculino. Notem como ambas cenas são filmadas da mesma perspectiva e até mesmo contêm a mesma trilha sonora para que possamos ter esta unidade de ponto de vista.⠀

A última cena nada mais é do que uma confirmação do que expõe a teoria de Foucault. Temos Charlie encarcerado numa cela (claustrofóbica) construída especialmente para ele, isolado, sem comunicação com outros presos e sendo vigiado. Pan-óptico, a exemplo da cena inicial com ele no berço. Condenado a 34 anos em solitária, é como se ele iniciasse e encerrasse sua vida numa prisão.
Aqui temos uma cena envolta em muito vermelho e preto, pois trata-se de uma representação gráfica da raiva, da ira, do ódio.

Pan-Óptico

Um filme esteticamente bonito, tecnicamente bem construído, com atuação impecável de Tom Hardy; mas muito feel bad, é extremamente incômodo. Pra mim, foi!
Revi para escrever pro blog, não sei se revisitarei no futuro. 
Mas quem ainda não assistiu, recomendo muito, vale a pena. 
Eu pagaria um ingresso de cinema caro por esse filme. 💰💰

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1 comentário em “O melhor filme de presidiário de todos os tempos!”

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