“Os Intranquilos” descreve a rotina do transtorno bipolar4 min read

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Só quem convive com uma pessoa que tem bipolaridade sabe das angústias e dores. Essa é a premissa de “Os Intranquilos”, filme do diretor belga Joachim Lafosse. Ele é o mesmo de “Perder a Razão”, que citei nos assistidos de setembro-20.

“Os Intranquilos” narra a história de Damien e Leila, um casal profundamente apaixonado. Apesar da bipolaridade, Damien tenta seguir a vida ao lado de Leila, mesmo sabendo que pode nunca ser capaz de oferecer o que ela deseja.

Desde que começa, a tensão está no ar! Logo no início vemos Damien e Amine, filho do casal, no meio do rio, de barco. O pai decide retornar à praia e manda o menino voltar dirigindo o barco sozinho. Aos poucos, vemos que Damien começa a virar um risco para a família, especialmente para o filho. À medida que sua produção de telas aumenta, que sua criatividade ferve, sua instabilidade emocional avança na mesma proporção.

Por outro lado, ao longo do filme entendemos que o protagonista não é Damien, mas sim, Leyla. A esposa que tem de arrumar a casa de madrugada por conta dos surtos do marido. “Os Intranquilos” relata a rotina do jovem casal de forma crua, realista e bastante angustiante. Assim como acontece em “Our Children”, Lafosse coloca Leyla em situações de extrema pressão. Os eventos desafiadores passam a dominar seu cotidiano de tal forma que ela se vê sem saída.

O cotidiano em “Os Intranquilos”

O dia a dia com uma pessoa que sofre dessa doença não deve ser nada fácil. O filme é interessante pois demonstra as diversas perspectivas de quem está em volta. Tem o pai, o filho, a esposa, todo inseridos numa dinâmica que é impossível não refletirmos e nos imaginarmos naquele contexto. Ao mesmo tempo que penso ser desafiador pelo lado de quem fica ao lado durante toda uma vida, não consigo julgar quem decide se afastar. Até porque acabam todos precisando de suporte, de uma forma ou de outra.

Lentamente percebemos que Leyla vai se desgastando. Não apenas sua aparência vai se deteriorando como também seu próprio estado mental de extrema desconfiança e falta de paciência com Damien. Percebemos o quão exausta ela está durante uma hospitalização de Damien. Ela consegue se divertir, relaxar, se sentir livre enquanto seu filho descansa no quarto.

Por fim, Assistimos tudo isso com imagens nítidas em formato 16:9 (wide), com filtro azul que enfatiza bastante as cenas de mais depressão. O filtro azul também faz com que os brancos sejam mais frios juntamente aos cinzas. Todo esse cenário traz uma atmosfera bastante melancólica, triste e emocional para o filme. Destaco também as atuações de Leïla Bekhti (Leyla) e Damien Bonnard (Damien) que estão ótimos. Sem deixar de fora, o menino Gabriel Merz Chammah como Amine se sai muito bem. Ele convence quando demonstra estar assustado com o comportamento do pai.

Em resumo, na minha opinião, “Os Intranquilos” é um filme imperdível. Eu adorei, apesar do clima meio pesado. Entretanto, é um título que traz reflexão e me colocou numa situação diferente de tudo que já vivenciei. Aliás, essa é a grande beleza do cinema, nos inserir em situações tão reais ao ponto de nos imaginarmos nos lugares dos personagens.

O longa está disponível online na Mostra Internacional de Cinema de SP até o dia 3-novembro. Você pode adquirir o ingresso por R$ 12,00 através da Mostra Play.

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