“Madeira e Água” propõe olhar incomum da maturidade6 min read

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“Madeira e Água” foi um dos filmes mais surpreendentes da 45ª Mostra de SP, até o momento. Eu admito que não dava nada por ele, mas fiquei apaixonada! O filme conta a história de Anke que após se aposentar está ansiosa para rever os filhos durante as férias de verão. Entretanto, Max, um de seus filhos, não consegue se juntar à família por causa dos protestos que tomam conta de Hong Kong, onde vive. Sem vê-lo há muitos anos, Anke decide visitá-lo. Ela passa os primeiros dias sozinha em território estrangeiro, esperando Max voltar de uma viagem de negócios. Tomada por protestos, Hong Kong é para Anke um enigmático novo mundo por onde ela se move com cuidado, mas também representa uma aventura, uma escapatória.

É bastante curioso que quando chega ao litoral com sua filha, Anke retorna à antiga casa que viveu enquanto jovem e com as crianças ainda pequenas. Esse momento do filme, embora tomado de muita nostalgia, também carrega uma certa alegria de sua parte. Apesar de evidenciar a falta que Anke sente do marido, das crianças, ela está satisfeita de estar ali com a filha. Enquanto ela narra sobre o passado, assistimos uma espécie de slideshow das fotos correspondentes. Achei esse recurso mais interessante do que mostrar um flashback, torna o filme mais contemplativo e coerente com a pretensão do diretor alemão Jonas Bak. A atmosfera é solar, afinal de contas é verão na Europa. Sendo assim, temos cores mais quentes, presença de amarelos e laranjas.

Fotografia de “Madeira e Água” captura a beleza das grandes cidades

A gente já sente ali a mão da Fotografia de Alex Grigoras que traz as fotos em formato 4:3, 1:1, ao contrário do filme que roda em 16:9, o famoso wide. Aliás, foi uma escolha muito assertiva porque temos cenas de paisagens com enquadramento superaberto e seria incomodo se fosse um aspecto mais fechado. Além disso, temos também um contraste de cores entre os lugares que ela percorre na Europa (Suíça e Alemanha) e Hong Kong.

Essa passagem é feita de forma extremamente inteligente, mérito da edição. Logo após terminar seu encontro familiar no litoral da Alemanha, Anke segue para o aeroporto a fim de embarcar para Hong Kong e visitar o filho. A câmera acompanha o trajeto de dentro do carro, mas com visão para fora. E assim, entramos num túnel, vemos as luzes de iluminação e quando saímos já estamos nas ruas de Hong Kong. Vemos, não só, as luzes brilhantes, a noite iluminada e agitada, como também passamos a ter uma forte presença de azuis, brancos e cinzas.

Já que Anke não conseguiu pegar a chave do apartamento do filho, ela se hospeda num albergue. Chegando lá, conversa com uma jovem que está deixando a cidade e ela é quem irá nos explicar o que é Hong Kong. Dessa forma, sabemos que é uma grande cidade barulhenta, brilhante, agitado, muito quente, onde as pessoas são educadas. A garota conta que tentou ficar, mas não conseguiu por questões financeiras. Logo em seguida, os protestos começaram. São eles que também impedem o imediato encontro de Anke e Max.

Todos os eventos que se seguem confirmam o panorama que a jovem relatou para a alemã. Mas para nossa surpresa, a grande descoberta que temos é a de conhecer mais da protagonista. Enquanto a câmera captura imagens externas, sempre com o ponto de vista pra fora das janelas, mostrando a imensidão da capital e apequenando Anke; o nosso olhar permanece voltado pra ela.

Isso me lembrou muito “Encontros e Desencontros” de Sofia Coppola. Principalmente porque a protagonista está em busca do que fazer com sua liberdade, agora que não tem mais as obrigações da rotina. A gente consegue apreciar a cultura local, costumes, culinária junto com ela. Anke tem um olhar curioso e está aberta, disposta a receber o que Hong Kong tem a oferecer. Por outro lado, a protagonista do filme americano está sempre em companhia de alguém porque não consegue ficar sozinha, não se basta. Ao contrário da jovem senhora de “Madeira e Água” que consegue explorar o desconhecido sem precisar de apoio.

Em resumo, o filme nos proporciona um olhar bastante diferenciado da aposentadoria numa idade que ainda se tem muito conhecer. Anke é uma protagonista que nos propõe uma sensível vertente da maturidade, tanto quanto o interesse de um jovem.

Madeira e Água” estará disponível online e nas salas de cinema de São Paulo. Você pode adquirir ingressos para a Mostra Play a partir das 0h01min do dia 21-outubro. Para as sessões presenciais, confere os horários aqui!

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